Este blog terminou aqui. Durou entre o 1.º dia de aulas do 10.º ano e dois dias depois do último exame obrigatório para concluir o secundário. Marcou um período da minha vida. Significará, para sempre, isso.
Malvei o meu jardim
Com malvas em semente
Malvado o vento as arrancou
Pelo caule num curto repente.
Malvadez da chuva que as molhou
Que fez cair as que voavam
Malvou-se o campo em que caíram
As malvas, as malvadas malvas que fugiram.
O vento veio buscá-las
Arrancou-as como um ladrão
Malvadas malvas, não são vítima:
São actrizes em definição.
Levanta-se uma nébula.
Mistério se levanta em torno do astro.
Os primeiros pássaros cruzam os ares
Interceptando o mistério
Procurando a verdade.
São pássaros com ambição.
Eu vejo-os sentado num banco
Vejo o bando voar e desaparecer.
Voltará quando for tarde de mais para mim.
Voltará quando o dia tiver chegado
Depois de eu ter perdido o nascer do sol.
Lua cheia e vinte e três:
Vinte e três lobos
Em desafio ao luar
Trinta e sete estrelas
Que os ouvem a uivar
Outras tantas que ignoram
Os lobos a chamar
Outras tantas que preferem
Não ouvir e suspirar.
Cento e onze no céu conto
Cento e onze poucas são.
Todas essas cento e onze
E lobos da Idade do Bronze
Todos cento e trinta e quatro
Em desafio ao luar
Contemplam-se
ou ignoram-se
ou amuam-se.
(ao sabor das faces da Lua)
Outros dias virão
Em que as palavras me surjam com mais vivacidade.
Outros dias virão
Melhores que hoje!, senão troco por vinho a originalidade.
Cidadela romanesca
Com um povo de outrora
Que hoje já cá não mora.
Ninguém recorda
Ninguém se lembra
Ninguém pode sentir saudade.
É verdade dura e fresca
É uma cidade romanesca
Da qual lembrança não há.
A frescura trará candura
Trará vontade para edificar
Uma nova cidade assim tão pura
Como ninguém se lembra hoje
Como alguém sonhou um dia
Que um dia pudesse assim ser
Sem imaginar e sem saber
Que morreu a cidadela
E que ninguém se lembra dela.
Certo dia, certa hora,
Está tudo certo por regência divina.
Certo dia passarás na rua
Certo momento deixarei que flua
O certo sentimento de uma verdade nua
E a inocência de uma certa concertina.
Nessa hora virá à tona
Uma voz certa, velha e matrafona
Que abençoará as circunstâncias
Que as guardará para sempre em estâncias
Como o Poeta o fez um dia.
Como a vontade divina permitiu
E como o certo destino traçado definiu
Serei vencedor, epopeia nesta!
Será (certa que a verdade!) o amor manifesta
Certa que a verdade é eu te amar assim.
Esta noite não pude ver as estrelas.
A Lua brilhante, ofuscante e penetrante! foi ela.
Hoje apenas pude lembrar-me
De quando as via, de quando as contemplava
Quando a Lua era tão imatura.
Hoje espero pelo morrer da Lua.
Espero que as estrelas voltem ao céu.
Porque esta noite não pude ver as estrelas
Hoje apenas pude lembrar-me de quando as via.
Não quero saber porque ardem as fogueiras
Mesmo que sejam apenas para alumiar
A noite mais escura da minha vida.
Não quero saber porque correm os rios
Porque, afinal de contas, todos eles
Correm para o fim da sua existência
E para o desejo de se ser maior.
Nos segredos
Todos aqueles que guardo
Estão guardados os maiores tesouros
Que não quero revelar
Porque o valor é apenas sentimental.
A chuva lá fora,
Os ventos que assobiam,
E a madrugada fria que se aliam
Fazem-me gostar de ti,
Que me abraças.


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